Monday, May 29, 2006

Cemitério de Aldeia

Soneto de Marcionílio Porto
dedicado a Euclides Moreira Neto



No descampado de velha aldeia
pobre cemitério outrora havia.
Viam-se caveiras sobre a areia,
corujas dormindo sobre cruz esguia.



Sobre despojos visão vagueia
alva e flébil, ao fim do dia.
A visão chora - a lua pranteia -
a visão canta - a coruja pia.




Essa vida é frágil, muito pouca!
No sorriso da caveira oca
vê-se mistérios sem gritos de ais.




Descem as noites... Tudo é mistério!
- A visão não mais no cemitério.
Dir-se-ia ilusão. Jamais!... Jamais!...


Nota: Marcionílio Porto, o Sussu, nasceu em 1902, nas vizinhanças de Vitória da Conquista, mas depois mudou-se para o povoado do Barracão, que apenas nascia e que se tornou município com o nome de Rio do Prado. Em 1983, já octogenário, publicou Cantos do meu Ocaso, no qual, me parece, ñ consta este poema. Seu filho, Almir Porto, o popular Nini, publicou, em 2004, livro sobre o município e tem outro pronto para ser editado.

Espaço: Sertões

I



Espaço: sertões,
desertões: o desertão desabitado, o sertão.



O sertão é a grande mãe,
pois é tudo-envolvente e tudo-abarcante e tudo-abrangente e tudo circundante.




O sertão são as três deusas, três Marias:
a virgem das ramas e dos brotos tenros,
a mulher do ventre farturoso,
a velha bruxa da morte negra.




O sertão habita em nós.





O sertão é o mar
onde singra a barca dos homens,
o homem,
argonauta do sertão.





II






A morte invande e pervade o sertão:
coivaras: clareiras na caatinga:
casas, currais, cadeias;
incandescente sertão de carvoeiras e queimadas inclementes, indecentes.





O sertanejo preso no quadrado de cimento concreto e reto das cidades altivas,
vivo, embora morto, redivivo,
furtivo sobrevivente no holocausto das tradições da terra.





O matuto olha as luzes azuis reluzindo ali onde antes havia a mata;
o urbano, o humano ganha espaço na cidade,
desencalhando a barca dos homens (a cidade)
e descivilizando a hipocritíssima e hipercrítica civilidade ocidental.




O roçariano é o herói bárbaro que destrói os modernos muros urbanos.




Escrito em Pedra Azul,
no ano de 1994,
publicado em Poesia Escolhida (2005)
Nota: Até pouco tempo atrás acreditávamos que a palavra sertão vinha de desertão, como encontrávamos nas melhores fontes. Gustavo Barroso (em artigo publicado em 1952, na revista O Cruzeiro), encontrou nos linguajares angolanos palavra mais conforme: muceltão, terras interiores, ou seja, distantes do litoral, sendo que a forma certão também utilizada. Conforme vimos no livro O Império de Monte Belo - Vida e Morte em Canudos, de Walnice Galvão, Barroso encontrou essa pérola da etimologia no Dicionário da Língua Bunda de Angola, do frei Bernardo Maria de Carnecatim, publicado em 1804.

Um Vale de Lágrimas

Um vale de lágrimas
que correm para o mar,
que salgam o próprio mar,
águas vindas da seca,
areia assoreando,
sinhô se assenhorando
do arenoso leito,
extraindo diamantes,
devolvento excrementos;
a pobreza discrepante,
a fome e a demência,
um vale de lágrimas.

Escrito em Pedra Azul, no ano de 1996
Publicado em Poesia Escolhida

Pré-programação do Festivale 2006

O Festivale - Festival de Cultura Popular do Vale do Jequitinhonha, acontecerá na cidade de Taiobeiras, entre os dias 23 e 29 de julho.
O evento é promovido pela Fecaje - Federação das Entidades Culturais e Artísticas do Vale do Jequitinhonha, que este ano trabalha em parceria com a Prefeitura Municipal de Taiobeiras e Agência Cria Cultura, de Belo Horizonte e tem o patrocínio exclusivo da Avon Cosméticos.
A pré-programação que nos foi enviada pela diretora executiva da Fecaje, Ângela Gomes Freire, ainda pode sofrer alterações.
Apresentações
Dia 23 de julho (domingo):
Abertura, apresentações do Coral do Rosário (de Araçuaí) e de Iuri Colares (de Taiobeiras).
Dia 24 de julho (segunda):
Debate, apresentação do Grupo Vozes (de Araçuaí), com a peça O Homem Vaca e o Poder da Fortuna.
Dia 25 de julho (terça):
Apresentações teatrais dos grupos teatrais Em Cena (de Taiobeiras), com a peça Carne de Panela e Ícaros do Vale (de Araçuaí), com Histórias de Pescadores.
Dia 26 de julho (quarta):
Abertura da Feira de Artesanato, peça com grupo teatral de Itaobim, Noite Literária em homenagem ao poeta Cláudio Bento (de Jequitinhonha), apresentação do Coral das Lavadeiras (de Almenara) regido e acompanhado Carlos Farias (de Machacalis) e apresentação de Rubinho do Vale (de Rubim).
Dia 27 de julho (quinta):
Apresentações do grupo teatral Zastraz (do Espírito Santo), do coral Trovadores do Vale (de Araçuaí) e da cantora Titane (de Belo Horizonte).
Dia 28 de julho (sexta):
Abertura da Mostra Folclórica, apresentações de grupo teatral de Belo Horizonte, dos corais Trovadores do Vale (de Araçuaí) e Bem-te-Vi, e de Leo Marques.
Dia 29 de julho (sábado):
Feira de Violeiros, no Mercado Municipal, mostra das oficinas, apresentação do grupo teatral Transarte (de Jordânia), do coral Araras Grandes (de Araçuaí) e show de encerramento com o cantor Geraldo Azevedo (de Pernambuco).
Oficinas
Cultura do Vale do Jequitinhonha
Iniciação Teatral I e II
Técnicas Circenses
Cerâmica
Técnica Vocal
Dança Afro-Brasileira
Confecção de Tambores
Confecção de Brinquedos
Debates
A cultura do Vale do Jequitinhonha frente à globalização
Cultura e políticas pública - interiorização

Blog em formação

Estamos abrindo o Blog Vale do Jequitinhonha.
Brevemente colocaremos a disposição uma série de informações sobre essa região erroneamente chamada de "vale da miséria".
O Vale do Jequitinhonha abrange áreas consideráveis dos estados de Minas Gerais e Bahia, no Brasil, nas quais estão situadas dezenas de municípios e cerca de milhão de pessoas.
Estamos tb abertos a postagens de outras pessoas.