Monday, May 29, 2006

Espaço: Sertões

I



Espaço: sertões,
desertões: o desertão desabitado, o sertão.



O sertão é a grande mãe,
pois é tudo-envolvente e tudo-abarcante e tudo-abrangente e tudo circundante.




O sertão são as três deusas, três Marias:
a virgem das ramas e dos brotos tenros,
a mulher do ventre farturoso,
a velha bruxa da morte negra.




O sertão habita em nós.





O sertão é o mar
onde singra a barca dos homens,
o homem,
argonauta do sertão.





II






A morte invande e pervade o sertão:
coivaras: clareiras na caatinga:
casas, currais, cadeias;
incandescente sertão de carvoeiras e queimadas inclementes, indecentes.





O sertanejo preso no quadrado de cimento concreto e reto das cidades altivas,
vivo, embora morto, redivivo,
furtivo sobrevivente no holocausto das tradições da terra.





O matuto olha as luzes azuis reluzindo ali onde antes havia a mata;
o urbano, o humano ganha espaço na cidade,
desencalhando a barca dos homens (a cidade)
e descivilizando a hipocritíssima e hipercrítica civilidade ocidental.




O roçariano é o herói bárbaro que destrói os modernos muros urbanos.




Escrito em Pedra Azul,
no ano de 1994,
publicado em Poesia Escolhida (2005)
Nota: Até pouco tempo atrás acreditávamos que a palavra sertão vinha de desertão, como encontrávamos nas melhores fontes. Gustavo Barroso (em artigo publicado em 1952, na revista O Cruzeiro), encontrou nos linguajares angolanos palavra mais conforme: muceltão, terras interiores, ou seja, distantes do litoral, sendo que a forma certão também utilizada. Conforme vimos no livro O Império de Monte Belo - Vida e Morte em Canudos, de Walnice Galvão, Barroso encontrou essa pérola da etimologia no Dicionário da Língua Bunda de Angola, do frei Bernardo Maria de Carnecatim, publicado em 1804.

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